Entrevista a Boaventura de Sousa Santos para El Post Antillano (Porto Rico) – por Daniel Nina

Nota do Editor:
Daniel Lina, intelectual porto-riquenho de vasta trajectória como professor de direito, advogado, jornalista e activista, prepara um livro sobre Boaventura de Sousa Santos. No início de Setembro, veio a Portugal entrevistar o sociólogo português. Em El Post Antilllano (Porto Rico), de que é Director, Lina publicou dois textos com base nessa entrevista em 5 e 6 de Setembro de 2026.

Entrevista a Boaventura de Sousa Santos para El Post Antillano (Porto Rico)

por Daniel Nina

 

El Post Antillano (Porto Rico)
Na era do fascismo [democrático] normalizado, necessitamos de todas as vozes da oposição [uma nova leitura de Boaventura de Sousa Santos]

Daniel Nina

 

Boaventura de Sousa Santos – pelo direito democrático [de esquerda] à liberdade de expressão [contra todas as formas de cancelamento, particularmente as de direita, actualmente lideradas por Donald J. Trump]

 

Nos arredores da cidade universitária de Coimbra, Portugal, entrevistei Boaventura de Sousa Santos, um dos mais influentes intelectuais de esquerda da segunda metade do século XX e início do século XXI. Actualmente, é um dos sociólogos/intelectuais europeus mais citados no mundo. Desde 2022, tem sido vítima de uma campanha de cancelamento, o qual, apesar dos seus 21 doutoramentos honoris causa, o deixou fragilizado e marginalizado. Mesmo assim, mantém-se de pé, defendendo consistentemente a sua dignidade, pensando, escrevendo e debatendo.

“Em 2022, quando a guerra na Ucrânia começou, eu disse que era uma guerra orquestrada pelos EUA para destruir a Rússia e, assim, enfraquecer a China”, partilhou connosco de Sousa Santos na sua casa, onde, rodeado pelos seus entes queridos, incluindo o seu gato, conseguiu manter-se de pé. O preço desta denúncia, como nos explicou, foi a ampliação sem precedentes de uma campanha difamatória contra si por alegado assédio sexual, que acabou por não ter credibilidade e ser arquivada tanto pelos tribunais como pela editora onde a história foi inicialmente divulgada.

Desde então, juntamente com a sua mulher de longa data, Maria Irene, soube manter uma crítica contínua à liberdade de expressão da direita e dos liberais, baseando-se na sua própria experiência vinda da esquerda. Comentou-nos Santos que “a liberdade de expressão não pode ser utilizada para destruir, humilhar e marginalizar um sector por parte de outro sector”. Como explica, a liberdade de expressão deve ser uma garantia de pensar e falar livremente, assegurando sempre o respeito pelos direitos humanos de todas as pessoas.

Apesar de todas as tentativas para o silenciar, Boaventura de Sousa Santos continua a pensar e a escrever. Embora a imprensa convencional o tenha marginalizado, Santos descobriu as plataformas online e os blogues, onde conseguiu estabelecer uma marca emblemática, partindo da esquerda para o resto do mundo. Não conseguiram silenciá-lo.

Adverte-nos Boaventura de Sousa Santos de que o neoliberalismo vê a democracia como um problema e está disposto a destruí-la. Encara a sua experiência pessoal de forma muito problemática e não tem dúvidas de que as agências de informação dos EUA (a CIA), bem como as de Israel (Mossad), tiveram algo a ver com isso. “Hoje estamos todos sob suspeita e, sobretudo, sob a ameaça de sermos cancelados [como no meu caso] ou assassinados [como no caso de alguns dos seus companheiros e companheiras de luta]. Donald J. Trump conseguiu estabelecer uma cultura de exclusão e cancelamento de tudo o que não se conforma à narrativa da extrema-direita, a nível global.”

Para nós, em Porto Rico, vale a pena destacar a experiência de descrédito que intelectuais de esquerda sofreram às mãos da direita. Pensemos em Linda Colón, Urayoan Walker, Carlos Severino Valdez, entre outros. Globalmente, pensemos em Noam Chomsky e em Boaventura de Sousa Santos. É tempo de estarmos vigilantes na defesa da liberdade de expressão da esquerda. Reflictamos.

XXX – XXX

Enquanto realizava a entrevista a Boaventura de Sousa Santos na sua biblioteca particular, nos arredores da cidade universitária de Coimbra, Portugal, perguntava a mim mesmo como confrontar aquele que é claramente o culminar do pensamento hitleriano, ou seja, um fascismo de última geração a alastrar pelo continente americano. Hoje, de Donald J. Trump nos EUA a Javier Milei na Argentina, o continente americano está dividido por um grupo de políticos que acreditam na morte da democracia, na ausência de direitos humanos e constitucionais e, sobretudo, na destruição física da oposição. Perante isto, nós, em Porto Rico, questionamo-nos: o que fazer?

Em entrevista, Boaventura de Sousa Santos, um dos mais influentes intelectuais de esquerda da segunda metade do século XX e início do século XXI, expressou-nos a importância de “resistir para transformar”. Para ele, o grande problema da esquerda em geral, e na América Latina em particular, era manter-se presa na fase da crítica, sem apresentar modelos alternativos ao capital e aos seus processos de acumulação.

Partindo de uma radicalização da narrativa de direita, Trump impôs, segundo Santos, uma agenda de exclusão violenta. Essa violência é verbal contra a oposição, é fisicamente destrutiva contra o inimigo (sejam supostos narcotraficantes, terroristas ou pessoas de esquerda) e, sobretudo, “normaliza o fascismo democrático”. Ou seja, as práticas políticas ligadas ao fascismo são introduzidas pela via eleitoral.

Posto isto, Boaventura de Sousa Santos entende que o importante é reconhecer o valor da resistência para transformar o projecto fascista do capitalismo neoliberal. Em particular, este é um projecto que não acredita nas práticas democráticas tal como as entendemos, muito menos na cultura dominante dos direitos.

Tendo em conta o pensamento relevante de Boaventura de Sousa Santos, devemos pensar que a luta contra os projectos Esencia, Moncayo e Escambrón em Porto Rico faz parte da nossa resistência não só aos danos ecológicos, mas também às formas de acumulação extractivistas. Perante estas propostas que nos deixam sem água e sem acesso às nossas costas, devemos continuar a resistir. Mas, acima de tudo, devemos promover soluções alternativas. Pensemos nisso.

 

 

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